Sunday, June 20, 2010

na sexta-feira à hora de almoço estava sentadinha no café e o mundo mudou para pior. não só o meu mundo, tal como o conheço, mas o mundo ponto final. esqueçamos todas as opiniões e o circo mediático e os indignados do costume, de um lado e de outro. esses que não chegam lá, ao coração, talvez. no fim da adolescência apaixonei-me por um velhinho que li porque assim me foi imposto. apaixonei-me ao ponto de lhe escrever cartas começadas por “querido senhor saramago” e de ter achado que a minha mão direita, inútil mão direita, se tinha transformado para sempre numa mão especial porque ele a apertou no dia catorze de maio de mil novecentos e noventa e oito. este afecto nunca mais me largou e na sexta-feira, ocupada que estava a pensar no menu do almoço e nas notas do terceiro período, alegre pelo fim-de-semana, por paris em agosto e pelo amor que é o meu e que não me deixa espaço para me sentir miserável, na sexta-feira, dezoito de junho de dois mil e dez, leio o rodapé da tv, tremendo, os estafermos dos professores na mesa ao lado indiferentes, e é impossível não chorar, não por ele, que é muito maior do que a vida, esta ou outra que, desconfio eu e tinha a certeza ele, não existe, mas por mim, por nós todos, por este país que não terá nunca motivos para se orgulhar tanto outra vez, por este mundo que nos amarga e que se torna cada dia mais castanho. odeio castanho. o castanho entristece-me até ao infinito, tira-me a esperança. a morte deste velhinho que tornou a minha mão direita, inútil mão direita, uma mão especial, fez-me sentir castanha. só por isso as lágrimas estão mais do que justificadas.